Do carro de boi ao trem de ferro

Na década de 30 o principal meio de transporte era o carro de boi. O tempo passou e a história da família de Dona Aninha se cruza com o desenvolvimento de Alto Araguaia. O carro de boi saiu de cena dando lugar aos trilhos da Ferronorte. Esta senhora presencia 72 anos de mudanças

Por araguaianews em fevereiro 4, 2018
Matéria de  30 Outubro de 2009 por 
Na década de 30 o principal meio de transporte era o carro de boi. O tempo passou e a história da família de Dona Aninha se cruza com o desenvolvimento de Alto Araguaia. O carro de boi saiu de cena dando lugar aos trilhos da Ferronorte. Esta senhora presencia 72 anos de mudanças

Andréia Cristina
Lavousier Machry
Marcos Cardial
Raquel Lopes

Depois de alguns quilômetros por uma estreita estrada de chão, uma placa na cabeceira de uma ponte de madeira anuncia que restam poucos metros para o Sítio Boiadeiro, hoje, conhecido como Chácara da Aninha. A propriedade pertence à Ana Mendonça de Oliveira, mais conhecida como Dona Aninha, de 86 anos. Na década de 30, ela e sua família, saíram do município de Boa Vista, interior de Goiás, para Alto Araguaia em um carro de boi, meu de transporte muito comum na década de 30. A história de Dona Aninha é uma das mais antigas e conhecidas do município de Alto Araguaia (região Sul de Mato Grosso).

A viagem durou três dias. Antes de a família seguir, seu pai, Lúcio Mendonça Ribeiro, trouxe a mudança da família também transportada em dois carros de boi, feito com madeira e parafusos metálicos. A viagem com os nove integrantes da família foi tranqüila. Nenhum transtorno ou incidente no percurso. Foram três noites dormindo ao relento, sem preocupação alguma. Como companhia, apenas o céu e as noites estreladas. Nascida em Mineiros (GO) em dezembro de 1923, Dona Aninha chegou a Alto Araguaia em dezembro de 1937 os 14 anos. Um ano depois sua mãe, Ana Custódia de Resenhde, morreria. Na época, a cidade ainda estava em seu período de ocupação, tanto que havia apenas uma avenida principal, hoje conhecida como Carlos Hugueney ou BR-364.

Inicialmente o município chamava-se Santa Rita do Araguaya. Em 2 de agosto de 1933, a sede e a comarca foram transferidas para Lageado (atualmente Guiratinga). O nome Alto Araguaia só foi dado em 26 de outubro de 1938.

Esta senhora de olhos azuis nunca freqüentou a escola. Por conta da rigidez do pai, teve um mês de aula particular em casa com uma professora contratada. O tempo foi suficiente para ela dominar a leitura e a escrita. Ao falar deste período ela sorri e até brinca. “Meu pai não achava certo menina freqüentar escola, porque pensava que todas iam à escola para aprender a escrever cartinhas para namorados”.
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Desde que chegou a Alto Araguaia, Dona Aninha criou uma identificação singular com o município, tanto que mora na mesma propriedade há 72 anos. Sua história criou alicerces. Em 1945, aos 22 anos, casou-se com Abílio Siqueira de Oliveira com quem conviveu por 18 anos até ficar viúva em 1963. Do casamento, teve nove filhos. O tempo passou e a família cresceu. Com dificuldade no trato com os números e contando com a ajuda do filho caçula Salustiano Mendonça Siqueira, 45 anos, com quem mora até hoje, contou nos dedos 22 netos, 15 bisnetos e três tataranetos, todos com idades variadas e residentes em diferentes estados.

Aposentada, ela repete calmamente o ritual praticamente todos os dias: acorda cedo, “passa” o café e alimenta suas galinhas. A vida desta senhora é tipicamente a mesma de milhares de sitiantes. Toma café e empunha a enxada para a lida no campo. Nem mesmo os seus quase 87 anos, que completa em dezembro, a impedem de tal atividade mesmo a contragosto dos filhos e médicos. Magra, cabelos brancos na altura do ombro e de semblante enrugado, Dona Aninha confessa que leva uma vida pacata em sua propriedade. “Nasci no mato e vou morrer no mato. Meu sítio é minha vida. Gosto muito daqui. É a minha história”, diz ela, com sorriso fácil.

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Sua atual casa mantém traços daquela antiga vida simples e acolhedora. O cenário retrata uma vida tranqüila no campo: num dos cantos da casa, uma máquina de costura de pedal de ferro, sobre ela um óleo marca “Singer”, um imenso baú de madeira, um filtro de barro, dois sofás cobertos por capas floridas, uma cama de madeira com uma colcha de retalhos, um calendário, um berrante, um relógio de parede, um rolo de linha rosa deitado sobre um dos dois sofás, linha já engatada na agulha de crochê. No mesmo cômodo uma televisão Philco Hitachi de 12 polegadas e alguns remédios sobre um pequeno rack. Estes são os móveis que compõem a sala de contra piso, sem forro de uma das duas casas do sítio à beira do Rio Boiadeiro, hoje conhecido como Córrego da Aninha.

Em outra cobertura fica a cozinha com um fogão a lenha e outro a gás. No quintal uma pequena garagem improvisada que abriga uma camionete D-10 com os pneus vazios, um carrinho de mão, uma carroça, telhas e madeiras. Num curral, bem próximo à casa, está um antigo carro de boi. No quintal, em meio a antigos utensílios, o verde é abundante. Uma grande variedade de árvores e flores, entre elas seringueiras, laranjeiras, limoeiros, três marias, samambaias, cajuzeiros, coités e mangueiras dão o tom e o sentido de que na propriedade a preocupação é com a natureza. Algumas dessas árvores foram plantadas por seus pais e pela própria Dona Aninha.

Esta senhora mantém características de uma pessoa simples. Estava com uma tiara marrom, saia preta com detalhes em roxo e amarelo, camisa branca sem manga e chinelo de dedo remendado com arame.
Sorridente e às vezes de cara fechada, ela não tem nenhum outro pertence da década de 30 a não ser a primeira casa em que morou sua família hoje ocupada por sua filha, Ana Maria Mendonça, de 52 anos. A antiga casa, acredita, deve ter 200 anos e fica do lado da casa onde mora atualmente ela e seu filho Salustiano. Na propriedade, ela mantém algumas criações, como porcos, galinhas e atividade leiteira em pequena escala. Tudo que é produzido é para sustento para família, que fala com orgulho. “Minha família é tudo para mim”, disse ela, com os olhos marejados.
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Há 72 anos morando na região, Dona Aninha observou muitas transformações. A primeira delas foi ver Alto Araguaia se transformar em município. A principal, porém, foi o desenvolvimento alcançado pela cidade. Ela viu o período de transição do carro de boi para o trem de ferro com a chegada dos trilhos do transporte rodo ferroviário. No rastro do trem vieram grandes empresas que instalaram unidades industriais para processar soja e fertilizantes e a chegada de centenas de pessoas em busca de trabalho. Com o crescimento populacional, que hoje gira em torno de 13 mil habitantes, ela brincou. “A cidade cresceu muito e está engolindo o sítio”.
ARAGUAIANEWS, parabeniza  o brilhante Jornalista Marcos Cardial, por esta magnifica reportagem.

Fonte: Fonte: Marcos Cardial

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