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Comida afetiva: no paladar das próximas gerações, por Daniela Filomeno

Por araguaianews em maio 8, 2021

Eu sempre fui apaixonada por gastronomia, mesmo antes de trabalhar com o assunto. Sempre acreditei no poder que o alimento tem em unir as pessoas, em demostrar afeto, em passar por meio do paladar uma história e cultura de um país.

Daniela FilomenoFaz mais de quinze anos que estou à frente do projeto Viagem&Gastronomia, que começou como um blog pessoal para passar as dicas – que meus amigos tanto pediam – das minhas descobertas gastronômicas pelo mundo.

O blog mudou, virou um projeto enorme junto à CNN Brasil, mas há algo que permaneceu e talvez seja isso que faz meus olhos brilharem tanto quando falo de gastronomia: continuo acreditando que algumas comidas são capazes de te transportar em questão de segundos a lugares que nem passaportes carimbadíssimos seriam capazes de levar. Não falo de cidades, nem de países, mas de memórias afetivas, essas que reunimos ao longo de nossas vidas e nos remetem a situações de simbologia inexplicável: a do momento exato em que ela aconteceu. Para mim, memória afetiva tem tudo a ver com comida. E pra você?

Sabe aquela lembrança de um determinado sabor; de um cheirinho que vinha direito da cozinha e que a gente logo sentia ao entrar em casa; a alegria de saber que, naquele dia, iria comer um prato gostoso, preparado por alguém que pensou em você? Um bolo sendo assado; o aroma do feijão fresquinho borbulhando na panela; um cheirinho de pão de queijo saindo do forno; café coado na hora; aquela torta de receita secreta, mas com aroma inesquecível… Nada muito complexo, tudo muito saboroso e… inesquecível!

Aliás, acho que as melhores memórias são aquelas referentes a momentos que não foram necessariamente combinados ou planejados, simplesmente aconteceram. A comida acaba se tornando um pretexto para aquele encontro gostoso em família, que, sem intenção, acaba virando ritual, passando de geração para geração.

Um dia, ouvi de uma conhecida que a tradição de sua família há anos era comer pizza na ceia de Réveillon e que isso tinha um sabor muito especial. Ela explicou: seu bisavô ia todos os anos assistir à tradicional corrida São Silvestre que acontecia na noite do dia 31, em São Paulo. No caminho de volta, passava no único estabelecimento aberto naquela hora para comprar para a família o que comeriam na virada: pizza. O dinheiro era curto e comer pizza não era tão comum assim naqueles tempos, o que tornava o sabor ainda mais marcante. Hábitos assim, específicos de cada família, fazem com que diferentes alimentos tenham essa carga emocional que perdura por uma vida, por gerações.

Quem nunca perguntou a algum amigo se ele já havia comido tal receita, que, quando foi ver, ninguém conhecia com aquele nome ou tempero? Posso dar meu próprio exemplo: a carne de porco no fogão à lenha da minha avó mineira, que só de fechar os olhos posso sentir o cheiro, que não mais existe e nunca existirá igual. E seu biscoito de polvilho inesquecível? Todos certamente conhecem ou já comeram uma carne de porco ou um polvilho, mas os da minha avó….

Dia das Mães. A chegada do Dia das Mães me traz lembranças ainda mais fortes dos gostos de infância que perduram até hoje no meu paladar. Da mousse de chocolate que a minha mãe faz como ninguém, do figo em calda, do simples arroz com ovo que insisto em dizer que dificilmente terá comida melhor (com um certo exagero, mas com um fundo de verdade). Lembranças de alimentos que são quase um abraço, que chegam a aquecer a alma. Mas mais do que isso: eternizam momentos e memórias com aqueles que amamos.

Continuemos resgatando essas lembranças, misturando às nossas vivências pessoais, criando novas experiências com nossos filhos. Comer com prazer, com informações temperadas com carinho… Tudo estará no paladar, no coração e na memória das próximas gerações. Deu vontade de voltar a algum sabor especial?

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