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Guerras por água e outros recursos podem ser os conflitos do futuro

Verão seria "o mais seco das últimas cinco décadas"

Por araguaianews em setembro 7, 2021

Mau uso e disputas pela água podem criar até mesmo uma nova categoria de refugiados, afetados pelas condições climáticas

A seca na Turquia acabou com o reservatório da represa de Sel Kapani, perto de Ancara

A seca na Turquia acabou com o reservatório da represa de Sel Kapani, perto de Ancara

ADEM ALTAN / AFP – 3.9.2021

O relatório mais recente do IPCC, o órgão da ONU que estuda as mudanças climáticas, indica que o planeta pode estar em uma trajetória quase irreversível com alterações em ciclos de chuva, elevação dos mares, eventos climáticos extremos como furacões, secas e momentos de frio extremo. Tudo isso pode acarretar também em conflitos por conta de recursos naturais.

O mais importante deles é a água, essencial à vida e às atividades humanas. Diversas regiões do mundo já vivem problemas graves de fornecimento que podem gerar os novos conflitos do futuro. Segundo a ONU, a falta de acesso à água atinge atualmente 40% da população mundial. No Irã e Iraque, por exemplo, comunidades já protestam há anos contra o mau gerenciamento dos recursos hídricos e o problema pode atingir dimensões catastróficas nos próximos anos.

No mês passado, o ministro da Energia do Irã, Reza Ardakanian, alertou que o atual verão seria “o mais seco das últimas cinco décadas”, de acordo com o jornal Asia Times, o que ele define como uma possível crise sem precedentes. O pior é que não se trata de uma questão recente no país.

Um ex-ministro da Agricultura do Irã, Isa Kalantari, já alertava para o risco de uma estiagem generalizada e de graves proporções em 2015. Segundo ele, no cenário mais grave, a falta d’água poderia ocasionar um êxodo de mais de 50 milhões de pessoas, cerca de 60% da população iraniana.

De acordo com Kaveh Madani, um cientista iraniano que trabalhou no ministério do Meio Ambiente do país, mas hoje está exilado e vive nos EUA, o Irã está “falido” em termos hidrológicos, ou seja, o consumo é maior do que a capacidade renovável de água, com seus maiores reservatórios, rios e lençóis secando. Em entrevista ao Asia Times, ele afirmou que a situação começa a afetar também o Iraque e a Síria.

“O Irã não terá capacidade de restaurar seus aquíferos em um curto período de tempo. Portanto, tem que admitir que está falido hidrologicamente e parar de negar os danos. Já vemos conflitos no país por conta da alocação de água ou implementação de estrutura em províncias centrais como Isfahan, Chaharmahal and Bakhtiari e Khuzestan, já tivemos greves, tensões e até pessoas sendo mortas”, contou Madani.

Foco na água

Para Leonardo Paz, professor de Relações Internacionais do IBMEC-RJ, há diversos problemas que compõem o atual cenário de escassez, não só no Irã e região, como em outros locais do mundo. O conceito de conflitos por conta de exploração ou escassez de recursos naturais não é recente, segundo ele.

“O conflito por recursos já está no radar há tempos. Nas décadas de 1970 e 80, o foco era no petróleo, que de lá para cá deixou de ser uma questão. Hoje sabemos que vai sobrar. Dos anos 2000 pra cá, se focou em água. Especialmente nos países em desenvolvimento, que investem pouco em infraestrutura, tratamento e saneamento, a legislação é muito atrasada e há muita corrupção na área”, afirma.

O próprio crescimento populacional representa um problema, segundo o especialista, porque exigiu um aumento na produção de alimentos e a agropecuária representa cerca de 70% do uso de água no planeta. A produção industrial responde por cerca de 20% e o consumo doméstico, por apenas 10%.

“Tem esses três pontos, o mau uso e falta de regulamentação na captação, a necessidade de usar na produção de alimentos e por fim a questão climática. Os impactos dela têm alterado regimes de chuva, capacidade das fontes reporem água, isso também causa desertificação de áreas rurais e vai afetar a produção também”, alerta Paz.

O professor aponta não apenas as províncias centrais do Irã, mas também a região fronteiriça com o Afeganistão, onde os dois países divivem as bacias dos rios Helmand e Harirud e esforços para ampliar a captação de água podem criar conflitos. Também no norte da África pode haver um problema sério na bacia do rio Nilo.

“O Nilo é interessante porque tem dois problemas. O Egito já está captando mais água do que o rio consegue renovar e tem a hidrelétrica que a Etiopia quer construir no Nilo Azul, que pode criar problemas com o Egito e o Sudão. Se a barragem alterar o regime das águas, toda a agricultura vai ser afetada, porque isso reduz as inundações e tira a fertilidade das margens do rio. Essa é uma bomba relógio em vários pontos do mundo”, ressalta ele.

Por tudo isso, a ONU e outros organismos internacionais se preparam para, em um curto período de tempo, a inclusão de um novo tipo de refugiado no cenário internacional, os refugiados ecológicos. “Por exemplo, se o nível dos oceanos subir demais por causa das mudanças climáticas, um país como Tuvalu, na Oceania, vai ficar inviável”, diz.

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